Breves Reflexões sobre Emigração.

Se você acha que a vida tem sido injusta com você, que lhe faltam oportunidades, ou que não lhe dão o devido valor, faça o seguinte: pegue numa cana de pesca e tente viver apenas do que o mar lhe dá“. © Nelson Faustino

  1. Emigrar não é ir tirar férias ali ao lado. Habituem-se a que vos perguntem “mas o que é que você está aqui a fazer?”
  2. Quem está fora tem de mostrar que é uma mais valia para o país acolhedor.
  3. Têm de desvirtuar o estereótipo que as pessoas têm, em geral, do português (ou do portuga, como se diz aqui no Brasil).
  4. Têm de dar uma boa imagem de Portugal e das instituições onde obtiveram formação. O vosso sucesso está intrinsecamente ligado a estas e vice-versa.
  5. Contrair dívidas e não as pagar é o aspecto ‘materialista’ que deve ser tomado em linha de conta por aqueles que emigram e fazem intenção em continuar neste país de acolhimento.

    e por fim …

  6. Habituem-se a ‘ir à pesca’ pois fora de portas o vosso emprego não está garantido à partida. Tão pouco têm direito assegurado ao subsídio de desemprego.

Em suma:  Emigrar vale a pena pela aventura e pelo aprendizado que desta experiência se retira. Quanto ao que se escreve em jornais, não devem dar demasiado crédito. Para terem opiniões bem formadas sobre o assunto emigração, nada como perguntar diretamente aos vossos amigos e/ou conhecidos que estão fora de portas. A mim, por exemplo, via e-mail, caso tenham algumas questões a colocar sobre o Brasil.

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Varoufakis.

Na europa criou-se a ideia de que “há que cumprir com os compromissos”, sem discutir se os compromissos são exequíveis. Em Portugal, o lema de vida “pobre mas honrado” mantém-se, mesmo após o apagão dos anos de estado novo.
Quando aparece, alguém como este ministro picante e pouco convencional, que pensa fora da caixa, “ai Jesus que os Deuses gregos estão loucos!” — é esta a opinião quando passo os olhos pelos jornais portugueses, e pelas redes sociais.

Não deixa de ser curioso que o que este senhor defende vai muito ao encontro do que economistas como Paul De Grauwe — antigo conselheiro de Durão Barroso — tem vindo a defender. Leiam por exemplo o artigo de opinião Managing a fragile Eurozone , de 10 de Maio de 2011, e tentem enquadrar com as recentes declarações de Varoufakis, em particular as que proferiu poucos dias depois de ter sido nomeado para o cargo– para o efeito, o artigo do jornal Público, do dia 01 de fevereiro de 2015, para reavivar a memória de curto prazo.

Para entender a narrativa que Varoufakis não é preciso ser um especialista em macroeconomia. Basta apenas revisitar alguns escritores contemporâneos, que retrataram o problema das dívidas soberanas de uma forma bastante tangível. Peguemos por exemplo no clássico Little Dorrit, de Charles Dickens, onde o autor evidenciou as deficiências do governo britânico, e da crise de valores que a sociedade inglesa vivia, em plena revolução industrial. Marshalsea foi uma das mais conhecidas das prisões inglesas para devedores, onde o próprio pai de Dickens esteve preso por não ter pago uma pequena dívida.

Na época, os custos deste tipo de prisões eram suportados pelas famílias dos presos, uma vez que estes estavam impedidos de trabalhar. Para se libertar um preso de uma prisão de devedores, não bastava pagar apenas dívida em falta. Teria que se acrescentar os juros da dívida, juros esses que dependiam essencialmente dos caprichos dos credores.

Em Little Dorrit, Dickens satirizou a separação de pessoas com base na falta de interação entre as classes. Enquanto cidadão, contribui- e muito- para acabar com este negócio florescente que girava em torno de prisões como Marshalsea.

Mais de 200 anos após o nascimento de Dickens, e quase 5 anos após o início do programa de resgate, a Grécia ainda não se livrou do problema da dívida. Ganhou, no entanto, um ministro das finanças que, em quase 3 semanas, já contribuiu- e muito- para agitar as águas pantanosas da zona euro.

A história nunca foi escrita pelos perdedores mas pelos vencedores. Ainda é cedo demais para dizer quem vai ganhar este braço de ferro entre gregos e o eixo franco-alemão. Talvez um dia venhamos a prestar a merecida vassalagem a Varoufakis e ao povo grego. Ou talvez venhamos a culpar este e os demais por terem levado a europa e o euro para o precipício.

Só o tempo o dirá...

Adenda: Eu sei que todos os que me lêem esperam que, de uma forma ou de outra, fale sobre o que se está a passar no Brasil. Posso dizer que assuntos quentes não faltam. Esses que vão desde o processo Lava Jato, à popularidade em queda de Dilma, Alckmin e Haddad, passando pela derrapagem nas contas dos projetos de ciclovias e ciclofaixas da cidade de São Paulo. Caso venha a ter uma opinião formada que mereça ser partilhada — em especial no que diz respeito à mobilidade urbana — tomarei a liberdade de escrever sobre o assunto.

Uma Mercearia Portuguesa, com certeza!

“Não perguntes o que teu país pode fazer por ti. Pergunta antes o que podes fazer por seu país.” John F. Kennedy

Margarida Vila-Nova [Martins], atualmente personagem principal numa novela portuguesa, a ser exibida em horário de prime time, seguiu à risca a máxima de Kennedy quando se mudou à três anos atrás para Macau, e por lá abriu a Mercearia Portuguesa. Recentemente, encontra-se a braços com outro projecto, mais voltado para a venda de produtos cosméticos, em parceria com a ClausPorto — a Futura Clássica.

A marca Portugal tem um potencial imenso além-mar. A Margarida, ao par de várias pessoas anónimas, percebeu isso e pôs, com se diz na gíria, “as mãos na massa”. A chave do sucesso passou [aparentemente] por aliar o ambiente rústico, típico das mercearias que encontramos quando caminhamos por alguns bairros típicos de Lisboa, e de província, a uma narrativa em jeito de storytelling, em que há um aparente cuidado em explicar aos clientes, a origem e a história por detrás de cada produto.

Mais que as minhas palavras, recomendo vivamente a lerem o artigo publicado em Dinheiro Vivo, a 06 de fevereiro de 2015, assim como o artigo de à três anos atrás, publicado no suplemento P3 do jornal Público.

Feito num 31?

Os novos trintões têm medo de envelhecer. Vivem uma espécie de nostalgia de um futuro que ainda não têm. Parece-lhes tarde para tudo. Já lhes parece tarde para terem filhos, tarde para serem solteiros, tarde para ainda não serem nada profissionalmente, demasiado cedo para terem medo de envelhecer.

(…)
Os novos trintões não são só uma geração sem perspectiva com medo de emigrar pela saudade de quem deixam. Os novos trintões antecipam um futuro que ainda não têm e desenham — num silêncio cheio de equações de insegurança — a matemática do futuro, sem máquina com capacidade de calcular.

Maria Couto em Público–P3.

Aproveito este pequeno trecho que delitei do P3 para dar azo a uma pequena evasão de alma (aliás, é para isto que este blog também serve):

Já não sou um jovem na casa dos vintes mas um trintão feito num 31–a minha idade real. No entanto continuo a alimentar os meus sonhos como se fosse um jovem que terminou de entrar na universidade. Com altos e baixos pelo meio, mas continuo.

A experiência dos 31 ensinou-me a não sofrer por antecipação e a não dar nada como garantido. A experiência dos 31 ensinou-me que nem todos os dias são iguais e que cada dia deve ser visto como um exame a ser superado com distinção.

É verdade que se tivesse escolhido outros trilhos, estaria provavelmente numa situação mais confortável. Provavelmente, já seria homem casado, pai de filhos e já teria, provavelmente, comprado a minha primeira casa a prestações. Mas também é verdade que todas as escolhas que tive de fazer ao longo dos anos me permitiram uma certa realização pessoal.  E acima de tudo contribuíram para me tornar uma pessoa mais tolerante e melhor preparada para arcar com responsabilidades futuras que, ao contrário do podem estar a pensar, não se resumem apenas ao campo profissional.

Já fiz escolhas de que me orgulho. Outras de que me arrependo. Mesmo assim, continuo a preferir o risco da aventura ao comodismo da idade. Se tivesse colocado limites onde eles não existem, não estaria hoje aqui. Deste lado. Do Atlântico.

É verdade que não sei ainda se o meu futuro será por cá ou será  noutra latitude. Apenas sei que estou a adorar esta experiência de estar por cá. E isso é o que de momento interessa. Nada mais.

“Barão Geraldo, de colónia de imigrantes a cidade universitária”.

fugasBrasil

Esta edição do Fugas esteve “Em Campinas, no rasto da selecção nacional“.

Para quem [ainda] não leu o meu texto na edição do Fugas do último fim-de-semana, pode fazê-lo agora através do link:

http://fugas.publico.pt/DicasDosLeitores/331655_barao-geraldo-de-colonia-de-imigrantes-a-cidade-universitaria

Tal como tive oportunidade de dizer à editora do Fugas, 1500 caracteres–limite que me foi imposto– foram insuficientes para falar de tudo o que Barão Geraldo tem para oferecer a quem se decide perder por cá. De qualquer das formas, e tal como já foi prometido, irei falar daqui em diante por estes lados sobre os lugares que podem visitar e frequentar em Barão Geraldo. Se houver possibilidade num futuro próximo, certamente irei escrever mais dicas de viagens, indo ao encontro de quem vem de viagem a Campinas para acompanhar de perto a selecção, assim como para aqueles que tencionam vir para cá trabalhar e [possivelmente] estudar numa das universidades que mencionei no texto.

Abaixo seguem os links de alguns lugares de interesse citados mas não linkados no artigo:

Adenda: Esta minha colaboração voluntária com o Jornal Público teve como mote o Ano grande do Brasil vs 24º aniversário do jornal Público, celebrado na edição de 05 Março, edição que contou com Adriana Calcanhotto como directora por um dia.

cabeca

“Navigare necesse, vivere non est necesse.”

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Rembrant– Cristo e os Apóstolos enfrentando uma “tempestade no mar da Galileia“.

Quando escrevi há meses atrás o post “O Chauvinismo da Emigração.“, fi-lo recorrendo a um certo humor cáustico como forma de tentar aliviar o ambiente pesado que se fazia sentir– e ainda se faz — na imprensa Portuguesa. Quando no final terminei com o parêntesis:

Não falo daquelas famílias que, por força das circunstâncias, o pai e a mãe tiveram [novamente] de emigrar. Porque para essas a emigração é o trucidar de várias vidas que dependem de míseros tostões como de pão para a boca. Mas sobre isso espero escrever um dia destes mais a fundo com menos cinismo e mais humanismo.

referia-me a todos aqueles que partem na esperança de além fronteiras arranjarem um emprego digno que lhes permita viver o que lhes resta com alguma dignidade. Este foi exactamente o mote do excelente trabalho do jornal Público entitulado “Ei-los que partem pelo direito ao último terço da vida” que vale a pena ser lido e reflectido na sua essência.

A todos os amigos e conhecidos nesta situação resta-nos acalentar, com o pouco ânimo que nos resta, o seu coração com a esperança tal qual o general romano Pompeu fez com os seus marinheiros receosos por enfrentar a força do mar – “Navegar é preciso, viver não é preciso.”

Desistir de Portugal?

ProtestoBolseiros

Foto de um protesto de Bolseiros de Investigação na Universidade de Coimbra, junto ao meu antigo departamento.
Créditos da foto: Jornal Público.

Hoje foi um dia triste para a investigação em Portugal, dia esse que trouxe âmagos de bocas a muitas pessoas que estavam esperançadas de conseguir uma bolsa de doutoramento/pós-doutoramento, entre as quais uma amiga de longa data da minha irmã.

Embora a minha situação enquanto bolseiro em Portugal fosse diferente da de muitos bolseiros, uma vez que já me tinha sido uma bolsa em 2010 (teria apenas de a ir renovando), ao me aperceber da deteorização das condições de trabalho nas instituições de ensino superior, decidi arriscar tudo e emigrei. Tudo pela salvaguarda da minha carreira enquanto investigador a médio e a longo prazo.

O meu conselho para todos aqueles que gostem de investigação e pretendam continuar a trabalhar no que gostam e têm apetência, não coloquem entraves se a única opção que vos restar seja a de emigrarem. De qualquer forma, não façam o erro de renunciar à nacionalidade Portuguesa por muita gana que possam ter, ou por muito que se sintam injustiçados. Renunciar à nacionalidade seria um gesto de ingratidão para com todos aqueles que vos amam e que vos viram/ irão ver partir lavados em lágrimas.

Devem sim continuar a ter orgulho de ser portugueses. E deverão sentir orgulho, no caso de conseguirem estabelecer uma carreira além-fronteiras, de terem construído um curriculum que me permita trabalhar, ao contrário de uma certa corja que (des)governa Portugal, de forma honesta e em qualquer parte do mundo.

Orgulho em ser Português não se resume a gostar de Portugal e de viver eternamente lá por mera teimosia. Orgulho em ser Português passa por não ter medo de ir além-mar.

Não há razões para ter medo!!!

Leitura complementar: Hoje a investigação recuou 20 anos em Precários Inflexíveis.

” São lágrimas de Portugal!”

RonaldoBolaOuro

Lágrimas de Cristiano Ronaldo após a consagração como vencedor da Bola de Ouro. Retirada do Jornal Público.

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa Pessoa, F. Mensagem. Poema X Mar Português. Edições Ática: Lisboa. 1959.

O mundo do futebol assim como demais “mundos” está rodeado por pessoas geniais e cheias de talento. Muitos desanimam à primeira derrota, à primeira contrariedade e às múltiplas injustiças, acabando por desistir. Poucos são os que se erguem e continuam altivamente a persistir naquilo em que acreditam, tentando dia após dia manter o selo de bons profissionais e, acima de tudo tornar-se melhores seres humanos.

Cristiano Ronaldo é um dos muitos talentos que Portugal viu nascer mas dos poucos que resistiu às primeiras contrariedades. E confirmou, no seu discurso lavado em lágrimas, que deu o seu melhor para arrebatar e merecer este prémio. O discurso altruísta, citando Eusébio e Madiba, colocou-o no panteão dos seres humanos que jamais esquecerão a palavra “gratidão”.

Obrigado CR7! Campinas te aguarda…

O Chauvinismo da Emigração.

Printscreen do meu tablet

Printscreen do meu tablet
URL: http://instagram.com/p/gOgqkUHsma/

Acontece que na imprensa diária portuguesa a emigração jovem tem sido tratada como uma tragédia, como algo irreversível comparável, segundo as palavras de alguns– que ainda nem sequer emigraram — pior que um acidente de viação com perdas mortais.

Se o leitor que me está a ler é pai/mãe ou avô/avó começou já a derramar uma lagriminha no canto do olho após ler o artigo do P3 (suplemento do jornal Público) que linkei acima, e porque têm um filh@/net@ dispostos a emigrar, digo-vos por experiência própria que não há necessidade para tanto pois a emigração é mesmo uma oportunidade: oportunidade para se crescer, desenvolver auto-defesas, de perder o medo de arriscar e acima de tudo uma oportunidade de ouro de auto-conhecimento. Pena que não tenha tido a coragem de o ter feito mais cedo. Quem me conhece sabe bem o porquê…

É verdade que a minha geração cresceu e estudou iludida de que ter um canudo era condição suficiente para se ganhar bem e se ter emprego garantido. Tal não é verdade nem nunca o foi. Apenas o é para quem a família tenha uma empresa ou para quem quer fazer vida da política como tão bem ilustrou o Fernando Moreira de Sá em entrevista à revista Visão.

É verdade que os nossos pais lutaram por uma vida melhor na perspectiva de que os filhos teriam estabilidade. Saiu-lhes o tiro pela culatra pois uns encostaram-se à sombra dos pais e insistem em viver dos míseros tostões de mesada que recebem; outros porque nunca souberam o que é trabalhar preferiram a via mais fácil : ou se tornaram delinquentes ou decidiram intoxicar-se de drogas leves e/ou substâncias psicotrópicas para esquecer por breves instantes que o céu lhes desabou em cima. Para quê?

Emigrar nos tempos actuais é bem mais fácil que no tempo dos nossos pais e avós. Para além de mais informação disponível, acresce que há telefones, voIP, blogues e redes sociais que permitem a quem está do outro lado nos possa seguir e comunicar em tempo real e abstrairmo-nos que estamos a centenas ou mesmo milhares de quilómetros de distância. A revolução tecnológica, mesmo sendo co-responsável pela destruição de muitos dos empregos, permitiu aproximar mais aqueles que estão longe assim como permitiu exportar para outras latitudes menos desenvolvidas todo o know how necessário para tornar estes locais destinos apetecíveis para gerar riqueza. A tecnologia também afasta quem está por perto mas isso é outra narrativa, como diria o outro.

Muitos dos pais, mesmo lavados em lágrimas, nem sonham o bem que a emigração poderá proporcionar na vida dos seus filhos.  É, em muitos dos casos, a solução forçada para obrigar os vossos filhos a atingir a maturidade e a tornar-se seres mais responsáveis.  Certamente que irão ser bons pais/mães de família e irão, tal como os pais, acreditar que poderão dar tudo de melhor aos seus filhos assim como acreditar que os seus filhos nunca precisarão de emigrar para outras latitudes. É a velha lógica do “Filho És, Pai Serás!”

Não falo daquelas famílias que, por força das circunstâncias, o pai e a mãe tiveram [novamente] de emigrar. Porque para essas a emigração é o trucidar de várias vidas que dependem de míseros tostões como de pão para a boca. Mas sobre isso espero escrever um dia destes mais a fundo com menos cinismo e mais humanismo. 

Leituras Complementares: