Varoufakis.

Na europa criou-se a ideia de que “há que cumprir com os compromissos”, sem discutir se os compromissos são exequíveis. Em Portugal, o lema de vida “pobre mas honrado” mantém-se, mesmo após o apagão dos anos de estado novo.
Quando aparece, alguém como este ministro picante e pouco convencional, que pensa fora da caixa, “ai Jesus que os Deuses gregos estão loucos!” — é esta a opinião quando passo os olhos pelos jornais portugueses, e pelas redes sociais.

Não deixa de ser curioso que o que este senhor defende vai muito ao encontro do que economistas como Paul De Grauwe — antigo conselheiro de Durão Barroso — tem vindo a defender. Leiam por exemplo o artigo de opinião Managing a fragile Eurozone , de 10 de Maio de 2011, e tentem enquadrar com as recentes declarações de Varoufakis, em particular as que proferiu poucos dias depois de ter sido nomeado para o cargo– para o efeito, o artigo do jornal Público, do dia 01 de fevereiro de 2015, para reavivar a memória de curto prazo.

Para entender a narrativa que Varoufakis não é preciso ser um especialista em macroeconomia. Basta apenas revisitar alguns escritores contemporâneos, que retrataram o problema das dívidas soberanas de uma forma bastante tangível. Peguemos por exemplo no clássico Little Dorrit, de Charles Dickens, onde o autor evidenciou as deficiências do governo britânico, e da crise de valores que a sociedade inglesa vivia, em plena revolução industrial. Marshalsea foi uma das mais conhecidas das prisões inglesas para devedores, onde o próprio pai de Dickens esteve preso por não ter pago uma pequena dívida.

Na época, os custos deste tipo de prisões eram suportados pelas famílias dos presos, uma vez que estes estavam impedidos de trabalhar. Para se libertar um preso de uma prisão de devedores, não bastava pagar apenas dívida em falta. Teria que se acrescentar os juros da dívida, juros esses que dependiam essencialmente dos caprichos dos credores.

Em Little Dorrit, Dickens satirizou a separação de pessoas com base na falta de interação entre as classes. Enquanto cidadão, contribui- e muito- para acabar com este negócio florescente que girava em torno de prisões como Marshalsea.

Mais de 200 anos após o nascimento de Dickens, e quase 5 anos após o início do programa de resgate, a Grécia ainda não se livrou do problema da dívida. Ganhou, no entanto, um ministro das finanças que, em quase 3 semanas, já contribuiu- e muito- para agitar as águas pantanosas da zona euro.

A história nunca foi escrita pelos perdedores mas pelos vencedores. Ainda é cedo demais para dizer quem vai ganhar este braço de ferro entre gregos e o eixo franco-alemão. Talvez um dia venhamos a prestar a merecida vassalagem a Varoufakis e ao povo grego. Ou talvez venhamos a culpar este e os demais por terem levado a europa e o euro para o precipício.

Só o tempo o dirá...

Adenda: Eu sei que todos os que me lêem esperam que, de uma forma ou de outra, fale sobre o que se está a passar no Brasil. Posso dizer que assuntos quentes não faltam. Esses que vão desde o processo Lava Jato, à popularidade em queda de Dilma, Alckmin e Haddad, passando pela derrapagem nas contas dos projetos de ciclovias e ciclofaixas da cidade de São Paulo. Caso venha a ter uma opinião formada que mereça ser partilhada — em especial no que diz respeito à mobilidade urbana — tomarei a liberdade de escrever sobre o assunto.

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Um pensamento sobre “Varoufakis.

  1. Republicou isso em Astrolábioe comentado:

    Via O Insurgente — http://oinsurgente.org/2015/02/20/golpe-de-mestre/

    Por outras palavras, a proposta grega era de garantir a extensão do empréstimo por 6 meses e, em contrapartida… continuar negociações sobre políticas que Syriza deseja implementar. Uma espécie de «primeiro enviem o dinheiro, depois vemos o que fazer com ele». O governo alemão percebeu a intenção e rejeitou-a imediatamente.

    Mas, na minha opinião, o vencedor deste confronto foi a Grécia ao fazer a Alemanha cair numa “armadilha” mediática (foi vista como o vilão). É que – ao contrário de entidades oficiais – os jornalistas e comentadores foram enganados pela retórica da missiva e, por via daqueles, o público em geral (antes de ler o texto reproduzido acima, eu incluído), presumindo que a Grécia fez algumas cedências. Não o fez, colocou apenas no papel aquilo que anda a dizer há semanas.

    Varoufakis teve aqui uma jogada de mestre o que, para um político dito amador, é louvável (acredito que a saída do euro é consequência perfeitamente aceitável para o Syriza, desde que não seja este percepcionado como a causa).

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