Sampa

Estive em São Paulo no passado final de semana para assistir a uma jornada da Taça Davis que pôs frente-a-frente Brasil e Espanha (Uma vitória histórica do Brasil frente à Espanha, diga-se de passagem). Por acordo mútuo com o meu colega (e amigo) de instituto decidiu-se que não se iria usar transportes públicos entre o hotel e o pavilhão. Ao invés, optámos por fazer uma caminhada de cerca de 40 minutos entre o hotel e o pavilhão onde decorriam os jogos. Mesmo contrariado, acabei por dar a mão à palmatória e de reconhecer que esta foi a melhor opção para conhecer um pouco da cidade. Pelo caminho acabámos por cruzar o parque de Ibirapuera (a foto de Instagram acima partilhada).

O parque de Ibirapuera fica localizado no coração da cidade e encontra-se próximo de Congonhas, um dos aeroportos de Sampa. Para além de ter ciclovias para uso exclusivo de ciclistas, skaters e afins, possui também umas trilhas bem interessantes para experimentar de BTT. 

Por momentos pus-me a imaginar como seria a cidade de São Paulo sem carros no centro da cidade.  Uma cidade onde se podia vaguear livremente e de forma serena por entre a multidão, acompanhado por boa música, bons livros ou simplesmente, por bons amigos.

Infelizmente uma pseudo-elite paulistana não partilha da mesma opinião. Recorre, inclusivé, a discriminação negativa para se opor à recente introdução de ciclovias por parte da prefeitura de São Paulo. Esta é a mesma pseudo-elite que critica o excesso de tráfego para entrar e sair da cidade em hora de ponta. E a mesma que se queixa de perder demasiado tempo entre casa e trabalho. Diga-se de passagem que foi o trânsito oneroso de Sampa o verdadeiro mote para os protestos do Movimento Passe Livre durante o ano passado.

Depois desta experiência faço intenção de voltar à grande metrópole, mas de bike. Mesmo sabendo à priori que existe uma grande incidência de acidentes envolvendo ciclistas em São Paulo. E que grande parte dos condutores não respeita os ciclistas. Não há preço que pague poder pedalar ao sabor do vento e ao ritmo do bulício urbano. Parafraseando, Caetano Veloso:

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas

Ainda não havia para mim, Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João

Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos Mutantes

E foste um difícil começo
Afasta o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva

Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi
E os Novos Baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa

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3 pensamentos sobre “Sampa

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