“Aventuras de um revolucionário civil”.

O golpe militar de 31 de março de 1964 veio encontrar Zeferino presidente do Conselho Estadual de Educação, depois de um ano como secretário da Saúde do governo Adhemar de Barros. Cinco anos mais tarde, num artigo comemorativo da quartelada, Zeferino explicou sua posição:

Pode-se perguntar por que razão um pacífico homem de ciência, acreditando com a mais profunda fé nas virtudes do regime democrático, que por ele lutara como soldado em 1932, foi compelido a buscar a derrubada de um estado de direito para substituí-lo por um estado revolucionário. A razão estava em que o que existia era um pretenso estado deTanque nas ruas em abril de 1964: em artigo, Zeferino Vaz justifica porque "um pacífico homem de ciência" foi compelido a buscar a derrubarda de um estado de direito (Foto: Acervo Arquivo Central (Siarq) Unicamp) direito cujos dirigentes se preparavam ardilosamente e sub-repticiamente para implantar uma ditadura de medíocres.(1)

Zeferino tomou essa decisão em agosto de 1963, depois de concluir que o ministro do Trabalho do governo João Goulart, Amaury de Oliveira e Silva, estaria “prestigiando” moralmente uma greve salarial na Santa Casa de Santos, que ele, ainda secretário da Saúde, tentava a duras penas debelar. Quando a greve ganhou o apoio dos estivadores das docas, o ministro viajou a Santos para reunir-se com as lideranças sindicais. Ao lado do provedor da Santa Casa, Ricardo Pinto de Oliveira, estudava a conveniência de aceitar-se ou não as condições dos grevistas. Zeferino tomou isso como uma afronta. Numa operação de emergência, desceu a serra na companhia de 40 enfermeiras emprestadas do Hospital das Clínicas de São Paulo para tentar restabelecer aquele serviço de enfermagem . Cruzou com o ministro na entrada do hospital e desviou-se dele com o semblante carregado. Terminou de subir as escadas como se não o conhecesse. “A partir daí”, escreveu Zeferino, “não tive mais dúvida sobre o governo”:

Um governo que, para alcançar seus objetivos subalternos, através do caos social, não sentia, comprovadamente, o menor escrúpulo em proceder criminosamente, não mais podia merecer o meu respeito de cidadão e muito menos de médico.(2)

E ia mais longe na sua interpretação do que pretendia o governo de Jango: nada menos que “implantar o caos e a desordem social através da degradação da economia brasileira, mesmo à custa de vidas de crianças e de pobres trabalhadores doentes, para justificar o golpe de Estado que preparava”. Caos que, na opinião do reitor da Universidade de São Paulo, Luís Antônio da Gama e Silva, um adepto de primeira hora do movimento militar, também ameaçava dominar o meio universitário e particularmente a instituição que dirigia.

Quando eclodiram as primeiras notícias do golpe, na manhã de primeiro de abril de 1964, a congregação da Faculdade de Medicina da USP reuniu-se em sessão extraordinária para formalizar seu voto de confiança no Exército. Pela rapidez com que isso foi feito, deve ter sido o primeiro apoio institucional que os militares receberam da sociedade civil. Houve prisões em sala de aula. A Faculdade de Filosofia foi invadida por tropas de choque e portas foram abertas a pontapés. O reitor cruzou os braços. O governo agradeceu cumulando Gama e Silva de poderes — deu-lhe o Ministério da Educação e logo em seguida o da Justiça — que ele usou para instalar, em julho, uma comissão especial “para investigar atividades subversivas na USP” da qual fizeram parte os professores Theodureto de Arruda Souto, da Escola Politécnica, Moacyr Amaral dos Santos, da Faculdade de Direito, e Jerônimo Geraldo de Campos Freire, da Faculdade de Medicina. Três meses mais tarde, essa comissão recomendou a suspensão dos direitos políticos de 44 professores e oito alunos e funcionários. Entre os “agentes da doutrinação marxista” estavam o físico Mário Schenberg, o arquiteto Villanova Artigas, os sociólogos Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso, o economista Paulo Singer e o estudante politécnico José Serra. Não houve sanção imediata por parte dos órgãos de segurança, mas os inquéritos policial-militares instalados serviriam de base, cinco anos mais tarde, para um expurgo efetivo que alcançaria parte dos arrolados em 1964.

O clima de caça às bruxas instalou-se na maioria das principais universidades brasileiras, sobretudo nas federais, onde não só professores eram presos ou indiciados como também reitores foram caindo um após outro. A deposição do reitor e fundador da Universidade de Brasília, Anísio Teixeira, um educador marcado por suas ligações com Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, homens de Jango, era uma questão de honra para o regime. Anísio caiu no dia 9 de abril, junto com seu vice-reitor Almir de Castro, e o campus da UnB foi invadido por tropas do Exército e da Polícia Militar de Minas Gerais, acantonadas em Brasília com metralhadoras em posição de fogo. O Conselho Diretor foi dissolvido e os escritórios dos professores interditados por duas semanas.

Menos de uma semana depois da invasão, no dia 15, Zeferino Vaz amanheceu interventor da UnB. O próprio general-presidente, Humberto de Alencar Castello Branco, convocou-o para o cargo por telefone.

— Preciso de você aqui para impedir a destruição da universidade – o general lhe teria dito, conforme relato posterior do próprio Zeferino.

Os quinze meses que passou na UnB como “interventor ou reitor a serviço da Revolução de 31 de Março”, segundo sua própria expressão, foram ao mesmo tempo produtivos e contraditórios. A parte boa é que, hábil em arrancar dinheiro do Estado, colocou em dia as finanças da instituição. Recebido com reservas pela comunidade universitária, surpreendeu a todos cuidando pessoalmente da libertação dos professores e estudantes presos durante a invasão. No entanto, poucos dias depois expulsou nove professores e quatro instrutores “por conveniência da administração” (mais tarde admitiu ter errado em dois casos, mas não conseguiu trazê-los de volta).

Em meados de 1965 tornou a causar surpresa ao convidar para organizar o Departamento de Filosofia o professor Ernani Maria Fiori, que havia sido demitido e aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no primeiro dos 16 atos institucionais do período militar. Quando as esperanças da comunidade interna voltavam a aglutinar-se em torno dele, Zeferino foi obrigado a voltar atrás, demitindo Fiori por ordem do Planalto.

Aborrecido com as interferências e abalado com a perda de prestígio interno, deu sua missão por terminada na capital federal e passou o cargo a um homem que faria história na Universidade de Brasília — o professor paulista Laerte Ramos de Carvalho — graças não só à quantidade de uísque que consumia mas também por ter rapidamente conduzido a instituição ao abismo.

Menos de dois meses depois da saída de Zeferino, o novo reitor demitiu 16 professores e, em represália, recebeu 223 cartas de demissão, o que equivalia a 80% do corpo docente da UnB. Foi a maior crise da história de uma universidade no Brasil.

Fonte: Capítulo 6 do livro O Mandarim–História da Infância da Unicamp. Disponível para leitura online a partir do site da Sala de Imprensa da Unicamp.

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