Na hora da despedida.

"O emigrante português no Brasil de 81 anos investiu em hotéis. Será ele o anfitrião, no luxuoso The Palms, em Campinas, do onze nacional"  (Dinheiro Vivo)
“O emigrante português no Brasil de 81 anos investiu em hotéis. Será ele o anfitrião, no luxuoso The Palms, em Campinas, do onze nacional” (Dinheiro Vivo)

Tenho saudades do tempo em que as pessoas usavam os blogues e as redes sociais para discutir ideias. Ideias pensadas, escritas, lidas, faladas, ouvidas, argumentadas, criticadas, mas sempre ideias com alguma coerência e projectadas no futuro. Até tenho saudades dos tempos em que as pessoas eram autênticas e não guardavam rancor, ou dos tempos em que as pessoas se referiam a Portugal como “a sua pátria mãe”.

Nos últimos dois anos, o assunto emigração tornou-se uma obsessão colectiva. Pudera! Desde os anos 60 que não havia uma vaga de emigração tão significativa. Apesar disso, quem ligar os televisores e ler os jornais fica com a sensação que este fenómeno de emigração em Portugal é ímpar.

Com o ruído que se faz sentir em cada paróquia, muitos dos paroquianos que habitam nos lugares mais recondidos de Portugal, perderam a capacidade de olhar para o país de forma transversal. De olhar para Portugal como um país global, recheado de pessoas com talento que levam a nossa cultura e os nossos hábitos além-fronteiras, e que contribuem de forma [in]directa para a imagem de Portugal no mundo. Tirando o Mourinho, o Cristiano Ronaldo e a Sara Sampaio, pois estes todos nós conhecemos…

Quem nos últimos tempos deambulou pela blogosfera e redes sociais deve ter constatado o apedrejamento público de que têm sido alvo figuras conhecidas da nossa praça que, ou num acto de inocência ou por mero revanchismo, decidiram ou “ameaçar” renunciar à nacionalidade Portuguesa– como foi o caso da pianista Maria João Pires– ou partir para outra latitude à procura de viver o que lhe resta desta vida com um pouco mais de alegria e dignidade, como foi o caso recente de Fernando Tordo, que por estas horas já deve estar comodamente instalado em Recife– bem-vindo camarada!

As mais recentes críticas a estes emigrantes cosmopolitas– algumas das quais descritas pelo filho de Fernando Tordo, o escritor João Tordo– reforçam mais a ideia de estarmos a assistir a um espectáculo de “vizinhos” desentendidos. Parece haver uma necessidade latente de catalogar estes ‘novos emigrantes’ como vilões que decidiram cuspir no prato de quem lhes deu de comer. Parafraseando Platão, deixou-se a inteligência de lado para se abraçar a mesquinhez.

Durante anos, os media em Portugal procuravam despoletar no exterior casos de sucesso de emigrantes que faziam sucesso além-fronteiras. Não davam capas de jornais e revistas e muitos menos eram notícia de abertura em prime time. Mas davam assunto de conversa em família e eram vistos como um motivo de orgulho. Como se de primos afastados se tratassem- Coisas da cultura portuguesa! Com a massificação do web2.0–internet, smartphones, socialmedia– este tipo de notícias tornou-se supérfluo. Felizmente, e a propósito da estadia da selecção nacional em Campinas durante o mundial de 2014, o suplemento do DN/JN Dinheiro Vivo decidiu fazer recentemente uma entrevista interessante com Armindo Dias. O rei das bolachas no Brasil que dá cama e roupa lavada à seleção nacional (sic).

Raramente se fala sobre casos de sucesso de emigrantes. Excepto quando se fala de super-estrelas e de vedetas ou quando se tenta julgar em praça pública as opções de vida daqueles que decidiram partir. Gente “injustamente” esquecida e só agora utilizada, muitas vezes sem pudor, para encher noticiários e dar tema de conversa a hobbits.

PS: Também há meses atrás, um dia antes de vir abraçar a minha nova aventura profissional, escrevi neste blog o meu primeiro Post. Fi-lo sem rancor e como jeito de despedida, despedida essa que será sempre um “até já”. Depois de tudo o que tenho lido por aí, a começar por falsas elites que se entitulam ser donos da verdade, provavelmente não o voltaria a fazer. Pelo menos com tanta autenticidade.

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