Eu [também] estou aqui!!!

Ordem e Globo- Uma das imagens disseminadas nas redes sociais a quando dos protestos de Junho passado no Brasil.

Ordem e Globo– Uma das imagens disseminadas nas redes sociais a quando dos protestos de Junho passado no Brasil.

Depois de ter escrito sobre as mais valias da vinda da Selecção Portuguesa à Copa 2014, estive para escrever um pouco sobre os dois últimos feriados no Brasil: o 15 de Novembro (Proclamação da República do Brasil) e do 20 de Novembro (Dia da Consciência Negra). Até à poucas horas, antes de ir fazer as compras semanais aos locais do costume, estive indeciso entre escrever sobre o paralelismo existente entre os motivos históricos que conduziram aos dois feriados e sobre o périplo de Darwin pelo Brasil, périplo esse que contribuiu de forma positiva para a abolição da escravatura por parte do Imperador D. Pedro II.

Após ter lido o artigo Eu estou aqui de Hugo Gonçalves– também emigrante no Brasil– na revista Visão, decidi que era imperativo escrever algumas palavras sobre o assunto de modo a desmitificar um pouco do povo brasileiro e sua da cultura.

Para sustentar o meu ponto de vista vamos a dados concretos. O brasil é, para além de um país, uma república federativa de dimensão continental (47% do território do continente Sul Americano) dividido política e administrativamente em 27 unidades federativas (sic) e uma população aprox. 20 vezes superior à população de Portugal e aprox. 2/5 da população da União Europeia. Ao contrário da união europeia, onde as línguas faladas entre os povos descendem essencialmente do latim, do anglo-saxão, do eslavo e do grego, no brasil a língua falada descende apenas do latim, tal como o português de Portugal (La Palisse não diria melhor). 

Embora ao contrário da europa a língua falada pelos brasileiros seja o português do Brasil não podemos cair no erro de dizer que “no Brasil existe uma única cultura: a cultura brasileira. Existe também um único povo : o povo brasileiro. Caso cada estado tivesse uma cultura diferente dos demais, então existiram vários povos e não um só povo. Não podemos cair no absurdo de que a existência do povo brasileiro é um mito.”

Embora o brasil tenha sido descoberto pelos portugueses, mais propriamente por Pedro Álvares Cabral durante a época dos descobrimentos, a organização territorial do brasil deu-se séculos mais tarde e coincidiu com a mudança da corte de Portugal para o Brasil a quando das invasões napoleónicas na Europa. E sim, tanto as invasões napoleónicas como a vinda da Corte de D. João VI para o brasil mudou de forma irreversível, tanto a história de Portugal como a história [recente] do Brasil.

Numa primeira fase os habitantes do Brasil eram predominantemente indígenas, emigrantes portugueses e afrodescendentes. Com a abolição da escravatura, houve uma segunda vaga de emigração de europeus, desde italianos passando por holandeses e alemães. Mais tarde e em pleno século XX houve uma vaga de emigração de japoneses. A título de exemplo, a supermodelo brasileira Gisele Bündchen é descendente de alemães que emigraram para o estado de Santa Catarina; a maior comunidade japonesa no mundo encontra-se no Brasil –e não nos EUA, como seria de esperar– e reside predominantemente no estado de São Paulo.

Ora, o Hugo ao escrever no seu artigo de opinião que

Os portugueses sentem-se estrangeiros no Brasil, mas não se consideram gringos. Essa recusa tem menos a ver com o cliché do turista em permanente estado de escaldão, incapaz de ir além de um “Gracias señor, samba!”, e mais a ver com uma proximidade com o Brasil, que nem sempre é recíproca. Seja por causa das aulas de História e uma vida a ver novelas, da MPB e do Axé, da emigração brasileira para Portugal nos últimos 20 anos, a verdade é que os portugueses sabem muito mais sobre o Brasil do que o contrário. Como tal, e porque falamos a mesma língua, o termo gringo seria insuficiente para descrever alguém que sabe imitar os tiques do Sinhôzinho Malta e dispõe de gramática para não ser enrolado por um taxista. 

demonstra uma certa ignorância sobre a cultura brasileira e sobre os brasileiros, em geral.

Primeiro, o Hugo tal como muitos portugueses que consomem as novelas da Globo em Portugal desconhece a cultura brasileira, limitando-se a descrever as diferenças culturais entre Portugueses e Brasileiros apenas ao nível da fonética e da sintaxe. Outro erro comum do Hugo e de muitos portugueses que vivem em Portugal é o de catalogar o povo brasileiro com base nos imigrantes brasileiros que vivem em Portugal, o que em si mesmo demonstra um certo atavismo já para não falar de preconceito.

Para além dos brasileiros que vivem em favelas e vendem sucos nas praias do Rio de Janeiro (aqueles que o Hugo descreve com um certo tom homofóbico), há pelo menos duas castas de Brasileiros que, para além de conhecerem portugal e as diferenças fonéticas entre os dois povos, não ouvem Axé mas grandes compositores brasileiros como Heitor Villa-Lobos, apostam no nosso país, quer seja para estudar, quer seja para [provavelmente] vir a investir nele no futuro como uma segunda casa. Esse foi um dos primeiros assuntos que me debrucei neste blog duas semanas depois de cá ter chegado.

Posto isto e todos os argumentos que supramencionei, penso ser totalmente errado catalogar um país e um povo como o brasil com base na opinião de emigrantes de um só estado. Cada português emigrado no brasil tem uma história diferente para contar, história essa que muda mediante o lugar que reside– ou se preferirem do habitat em que coabita. Por outro lado, o Brasil é — e continua a ser– um país de emigrantes, em constante metamorfose e de muitos carnavais que não se resumem aos carnavais do Rio e de Sampa. Existem também outros carnavais fora de época como o Pré-Cajú de Aracajú (do estado de Sergipe), assim como carnavais com outra designação como são o caso do Frevo do estado de Pernambuco e o Maracatú na Bahia.

Se me pedissem para descrever o Brasil numa slogan, eu diria que:

O Brasil é um país de várias florestas dentro de uma grande floresta.

Se me pedissem um conselho para prosperar enquanto emigrantes no brasil, eu diria:

Têm de ser como Uirapurú, o rei da floresta amazónica.

http://www.youtube.com/watch?v=1ptgWSpK_RU

Adenda: Algumas das citações e informações que constam neste post foram retiradas do grupo de Facebook “Portugueses no Brasil e no Mundo“.

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Um pensamento sobre “Eu [também] estou aqui!!!

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