O Chauvinismo da Emigração.

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Acontece que na imprensa diária portuguesa a emigração jovem tem sido tratada como uma tragédia, como algo irreversível comparável, segundo as palavras de alguns– que ainda nem sequer emigraram — pior que um acidente de viação com perdas mortais.

Se o leitor que me está a ler é pai/mãe ou avô/avó começou já a derramar uma lagriminha no canto do olho após ler o artigo do P3 (suplemento do jornal Público) que linkei acima, e porque têm um filh@/net@ dispostos a emigrar, digo-vos por experiência própria que não há necessidade para tanto pois a emigração é mesmo uma oportunidade: oportunidade para se crescer, desenvolver auto-defesas, de perder o medo de arriscar e acima de tudo uma oportunidade de ouro de auto-conhecimento. Pena que não tenha tido a coragem de o ter feito mais cedo. Quem me conhece sabe bem o porquê…

É verdade que a minha geração cresceu e estudou iludida de que ter um canudo era condição suficiente para se ganhar bem e se ter emprego garantido. Tal não é verdade nem nunca o foi. Apenas o é para quem a família tenha uma empresa ou para quem quer fazer vida da política como tão bem ilustrou o Fernando Moreira de Sá em entrevista à revista Visão.

É verdade que os nossos pais lutaram por uma vida melhor na perspectiva de que os filhos teriam estabilidade. Saiu-lhes o tiro pela culatra pois uns encostaram-se à sombra dos pais e insistem em viver dos míseros tostões de mesada que recebem; outros porque nunca souberam o que é trabalhar preferiram a via mais fácil : ou se tornaram delinquentes ou decidiram intoxicar-se de drogas leves e/ou substâncias psicotrópicas para esquecer por breves instantes que o céu lhes desabou em cima. Para quê?

Emigrar nos tempos actuais é bem mais fácil que no tempo dos nossos pais e avós. Para além de mais informação disponível, acresce que há telefones, voIP, blogues e redes sociais que permitem a quem está do outro lado nos possa seguir e comunicar em tempo real e abstrairmo-nos que estamos a centenas ou mesmo milhares de quilómetros de distância. A revolução tecnológica, mesmo sendo co-responsável pela destruição de muitos dos empregos, permitiu aproximar mais aqueles que estão longe assim como permitiu exportar para outras latitudes menos desenvolvidas todo o know how necessário para tornar estes locais destinos apetecíveis para gerar riqueza. A tecnologia também afasta quem está por perto mas isso é outra narrativa, como diria o outro.

Muitos dos pais, mesmo lavados em lágrimas, nem sonham o bem que a emigração poderá proporcionar na vida dos seus filhos.  É, em muitos dos casos, a solução forçada para obrigar os vossos filhos a atingir a maturidade e a tornar-se seres mais responsáveis.  Certamente que irão ser bons pais/mães de família e irão, tal como os pais, acreditar que poderão dar tudo de melhor aos seus filhos assim como acreditar que os seus filhos nunca precisarão de emigrar para outras latitudes. É a velha lógica do “Filho És, Pai Serás!”

Não falo daquelas famílias que, por força das circunstâncias, o pai e a mãe tiveram [novamente] de emigrar. Porque para essas a emigração é o trucidar de várias vidas que dependem de míseros tostões como de pão para a boca. Mas sobre isso espero escrever um dia destes mais a fundo com menos cinismo e mais humanismo. 

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5 comentários em “O Chauvinismo da Emigração.

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  1. Suas frases me deram um pouco de serenidade,pois quem tem filhos emigrados gosta de ver algum que se sente melhor do que se estivesse cá. Contudo disse logo no início o que acontece ás mães que têm os filhos a muitos km e com muitas horas de voo a separar os seus filhotes. As aves já nasceram com um código genético inscrito o que os leva a fazer as suas migrações.Há países que se desfazem dos jovens que fizeram sua formação perto dos pais e na altura de organizar família, cruzam mares sem dar descendência que dê continuidade aos velhotes que cá ficam.
    Emigração ,mas corações em sofrimento muita vez.

    1. Amiga Angelina,

      O fenómeno de emigração tanto nos anos 60 e 70 como agora com esta nova vaga fez com que as assimetrias entre grandes centros urbanos e comunidades rurais se acentuassem.
      Mesmo com as vagas de imigração nos anos 90, os “novos portugueses” sempre preferiram os grandes centros urbanos às cidades mais de interior.
      Isto implica uma série de custos, a começar pela manutenção da qualidade de vida– muito mas muito mais cara.

      Quem pensa em constituir uma família numerosa jamais poderá viver num grande centro urbano. Tem de regressar às origens do pé descalço voltando a repovoar as aldeias. De nada valerá a Portugal superar esta crise se o país continuar a desaparecer e a concentrar-se ao redor de grandes cidades como Lisboa, Porto e Coimbra.

      Para terminar, faço votos para que tenha entrado no novo ano da melhor forma.

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