Do Eduquês ao Cratinês.

KeithDevlin

Se Nuno Crato percebesse um pouco de inteligência canídea teria chegado à conclusão que um canídeo percebe tanto ou mais de matemática que um ser humano. A diferença reside no facto do cão, ao contrário do Homem, não tem a capacidade de conceber esquemas lógico-dedutivos.
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Hoje e a título especial vou escrever sobre Nuno Crato — que não é matemático mas estatístico e cuja formação de base em ciências económicas— e da sua recente ideia avulsa de tornar obrigatórias as provas de Português e Matemática para acesso ao curso de Educação Básica. Da prova de Português estamos mais que entendidos pois esta já se encontra do plano curricular dos alunos do secundário. Da prova de Matemática nem por isso pois esta não é obrigatória para os alunos que se decidam por áreas de humanidades e afins.

Antes de fundamentar a minha crítica a esta medida avulsa, convém fazer uma breve declaração de interesses: tenho, ao contrário de Nuno Crato, formação de base em matemática e já leccionei no Ensino Superior ao curso de Educação Básica em regime presencial como em ensino a distância.

Tendo em conta a minha experiência em educação básica (ano 2009/2010 no IPLeiria) constatei, tal como Nuno Crato afirmou, a falta de formação de base em matemática por grande parte dos alunos era mais que notória devido em grande parte a estes terem deixado de praticar matemática por 3 ou mais anos (estou a pensar nos alunos de Educação Básica que acedem ao ensino superior por via do programa +23 [anos]). Mais curioso ainda foi ter constatado, quando me mudei de um politécnico para uma Universidade, que existiam também alunos em cursos de ciências e engenharia que apresentavam as mesmas lacunas que os alunos de Educação Básica.

O problema de Nuno Crato e de muitos ideólogos do Eduquês, recentemente convertido em Cratinês com a chegada de Nuno Crato a ministro da educação, é o ignorarem a evolução do país nos últimos 40 anos. Portugal deixou de ser um país com elevadas de taxas de analfabetização e de cruzes com Cristo crucificado pregadas nas paredes das salas de aula e passou a ser um país onde a escola é, para além de um centro de transmissão de conhecimento, um lugar que depende mais do que nunca da sua ligação com a sociedade e com o meio envolvente. O papel da alfabetização já foi em grande parte cumprido, muito devido às conquistas de abril e à nossa entrada na União Europeia (ex- CEE) que nos, permitiu tal como nos países mais desenvolvidos, acompanhar a onda do progresso nas quais incluo o acesso às tecnologias da informação. Em casos mais sui generis, o primeiro contacto com tecnologias de informação deu-se com o tão criticado programa Novas Oportunidades. Portanto, o actual papel da escola já nem passa tanto pela alfabetização mas pela inclusão social, dotando todos os indivíduos de competências científicas e não só! Por alguma razão as escolas e as universidades procuram, mais do que nunca, informações detalhadas sobre o paradeiro de antigos alunos de forma a usarem estes como modelo/referência a seguir.

O papel do MEC (Ministério do Ensino e Ciência) deveria passar por assegurar a tal formação científica de base nos currículos do ensino secundário e não por avaliar se os alunos possuem formação de base. Porque uma coisa é ensinar e motivar os alunos a terem o gosto por áreas como a Matemática; outra coisa é avaliar, avaliação essa que pressupõe que os alunos atingem determinadas metas de acordo com o padrão que o professor estipula. Ora aqui está a falha, pois uma coisa é saber manipular intuitivamente conceitos como adição, subtracção, multiplicação e divisão (coisa que qualquer pessoa aplica na vida prática quando vai às compras), outra coisa é extrapolar estes conceitos segundo regras formais que se treinam no decurso das aulas. No caso da matemática, a experiência empírica prova que se o aluno não praticar regularmente o uso deste tipo de regras formais, estas tendem a ser esquecidas.

Mais: ao aplicar este tipo de exigência apenas ao curso de Educação Básica, Nuno Crato por um lado abrirá um precedente que vai contra a soberania das instituições de ensino na selecção dos candidatos e na escolha das provas específicas para acesso ao curso e por outro lado restringe a igualdade de oportunidades assegurada, pasme-se caro leitor, pela constituição de 1976.

Se ao invés de medidas avulsas o MEC se dedicasse apenas ao papel que lhe compete, que passa pela reformulação dos programas curriculares de acordo com as necessidades de formação de base e pela monitorização e regulação do funcionamento das instituições do ensino superior. Exigências curriculares, essas são e deverão ser sempre da competência de quem ensina e está no terreno.

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